Bibliotecas
the happiness of it
Voltando após mais uma temporada acometida pelo temor qualquer-coisa-que-eu-disser-vai-ser-estúpida (permaneço em tratamento eterno). O estímulo foi nada surpreendente: me saturar de indignação. Mas não é desse estopim que vou falar; nem conseguiria elaborar isso agora. O ponto de partida deste post, por já estar amplamente noticiado, não precisa ser detalhado por mim. Depois de ler a fala absurda sobre “biblioteca caríssima” com “livros importados”, me vi diante de um texto diametralmente oposto de 1905. É esse texto que vim compartilhar.
Entre 1902 e 1916, foi publicado um periódico chamado T. P.'s Weekly, fundado por T. P. O’Connor. O jornalista irlandês foi membro do parlamento britânico por quase 50 anos ininterruptos e chegou a Father of the House of Commons (sênior dos seniores). Em 1905, liderou a United Irish League, cujo lema “the land for the people”, a terra para o povo, resumia seus ideais de reforma agrária. É nesse contexto que foi publicado o artigo “A Working Woman's Library” no jornal de O’Connor.
“A Working Woman's Library” foi publicado anonimamente (“by its owner”) na primeira edição do mês de setembro de 1905. A autora diz que sua motivação foi um texto chamado “A Working Man's Library", publicado em uma edição anterior do mesmo jornal.
Foi com imenso prazer que li, meses atrás, um artigo no T. P. Weekly sobre “A Working Man's Library”. Talvez interesse aos vários leitores to T. P. saber que eu, apesar de ser apenas uma mulher trabalhadora, também tenho uma biblioteca da qual me orgulho. Ao contrário do homem trabalhador, ainda não tenho dinheiro para uma estante nem para prateleiras onde colocar o meu modesto estoque literário, mas ainda assim gosto dele.
Parêntese: no mesmo jornal, encontrei a propaganda abaixo. Uma estante de livros feita de unidades menores, como nichos móveis. Chamaram de “elástica” — “nunca muito grande, nunca muito pequena”. Segundo o anúncio, é vendida à vista ou a prazo.
Voltando ao texto. A autora cita um trecho talhante de “The History of David Grieve", romance de Mary Augusta Ward (ou “Mrs. Humphry Ward”, ela mesma uma figura cheia de contradições): “a educação é útil a uma mulher trabalhadora tanto quanto tamancos são úteis a uma vaca”. Comenta, em seguida, a fala da personagem de Ward.
Infelizmente, na maioria dos casos, essa afirmação ainda é literalmente verdadeira. Apesar do progresso da modernidade, as condições de vida das trabalhadoras deixam pouco tempo para descanso ou prazer, menos ainda para cultura. Porém, no meu caso, posso dizer que meu gosto por literatura tem sido uma das paixões dominantes em minha vida.
Ela se diz uma leitora “onívora” — lê de tudo. Menciona parte do que precisou sacrificar para poder comprar livros e elenca as oportunidades que a ajudaram na consolidação desse gosto.
Nunca deixarei de ser grata: desde os 9 anos de idade até os 12, tive acesso a uma boa biblioteca. Aos 14, me cadastrei em uma biblioteca pública. (…) Antes dos 20, já havia lido Carlyle, Ruskin, John Stuart Mill e muitos romancistas; porém, pelas minhas circunstâncias, só pude comprar poucos livros. Em meu vigésimo primeiro ano (…) apesar de ser apenas uma operária e ter uma mãe semi-inválida para sustentar, consegui juntar alguns xelins e começar a formar o que posso descrever honestamente como a biblioteca de uma trabalhadora.
No decorrer do texto, a dona da biblioteca lista diversos títulos e dá opiniões sucintas sobre alguns deles. Conclui com o subtítulo “The happiness of it”, citando o dicionário que tanto a auxilia em todo esse percurso. Seu parágrafo final:
Eu audaciosamente descrever esta lista curta de bem menos de 40 livros como minha biblioteca deve despertar um sorriso de dó ou escárnio, conforme o caso. Contudo, vivi o suficiente para saber que, nos livros, como em outras coisas, “a riqueza de um homem consiste não na abundância de suas posses”, mas no uso que se faz delas. Comparativamente, minha modesta biblioteca me custou tanto quanto uma biblioteca esplêndida de um milionário lhe custaria, e tenho certeza de que nem mesmo um milionário poderia ler e valorizar os seus livros mais do que eu com os meus.
A autora do texto não o assina com seu nome; não busca um status de grande leitora. Isso nos impede de saber mais sobre ela, mas também tem a implicação interessante de transformar o seu texto em espécie de carta aberta tanto em remetente quanto em destinatário. Escrevendo em resposta a outro texto do mesmo periódico, ela se insere em um tipo de conversa assíncrona, mesmo que anonimamente. Uma conversa aberta que só foi possível graças à circulação do jornal.
Talvez seu objetivo fosse esse envio com destinatário em aberto, talvez quisesse implicitamente incentivar outras leitoras. Não sei.
Só o que eu sei dizer é que aqui, em 2022, não pude deixar de pensar sobre o que bibliotecas públicas têm o potencial de fazer que bibliotecas particulares “caríssimas” falham em proporcionar.

