ler e reler
são a mesma coisa
O ensaio “Por que ler os clássicos?”, de Italo Calvino, foi publicado em 1986 na The New York Review of Books. No Brasil, esse texto foi incluído em uma coletânea de mesmo nome, que saiu pela primeira vez no começo da década de 90 em tradução de Nilson Moulin. O título, objetivo, chama a atenção. Essa pergunta continua sendo repetida por quem lê, escreve, ensina e/ou publica literatura. Às vezes, é desdobrada em outras perguntas, como “deveríamos ler clássicos na escola?", “com que idade ler tal livro?” etc. (Essa da escola foi levantada recentemente por um tuíte do Felipe Neto. Mas é provável que qualquer coisa no mundo já tenha sido tema de tuíte do Felipe Neto.)
Não vou falar de ensino aqui. O texto do Italo Calvino trata simplesmente de ler os clássicos. Tenta definir, em primeiro lugar, o que eles são:
1. Os clássicos são aqueles livros dos quais, em geral, se ouve dizer: ''Estou relendo...'' e nunca ''Estou lendo…''. Isso acontece pelo menos com aquelas pessoas que se consideram "grandes leitores". (p. 9)
Dizer “relendo", para ele, tem a ver com uma “pequena hipocrisia por parte dos que se envergonham de admitir não ter lido um livro famoso”. A ressalva de que isso acontece “pelo menos com aqueles que se consideram grandes leitores” é crucial por determinar o nicho em que isso ocorre — afinal, não seria esperado da maioria das pessoas que tivessem lido Guerra e Paz. Calvino olha para uma minoria de (very) well read people, “grandes leitores" que têm o conforto financeiro e o tempo necessários para livros tão longos que servem para peso de porta. (Falo isso com o carinho de quem se sente feliz e privilegiada de poder ler esses troços, ainda que me falte tempo e conforto financeiro para ler mais.)
Nem o critico porque, além da ressalva, o público a quem ele se dirige, da The New York Review of Books, é basicamente composto por essa minoria. De todo modo, apesar de abrir a lista, esse é o item menos interessante. O texto melhora depois. O 4 e o 5, por exemplo, contrabalançam o primeiro:
4. Toda releitura de um clássico é uma leitura de descoberta como a primeira.
5. Toda primeira leitura de um clássico é na realidade uma releitura. (p. 11)
Ler ou mesmo assistir a uma série é sempre, em parte, reler, porque há algo do clássico que se impregnou por aí. Por outro lado, toda releitura é uma leitura nova, com a possibilidade de uma descoberta que não se fez antes — ou que nem se podia fazer antes. Toda obra se sujeita a uma atualização, para bem ou para mal. No caso de quem lê/vê, mais para o bem, já que a dopamina da descoberta é boa demais.
O que se cristaliza sob o rótulo de clássico às vezes é um conjunto definido por perspectivas excludentes, claro, mas não precisa se tratar só disso. Decolonizar, rever e expandir o cânone não implica necessariamente deixar de relê-lo nesse sentido mais amplo. Mesmo se quiséssemos jogar os clássicos no lixo (valeria a pena?) para reconstruir essas noções, não nos livraríamos deles instantaneamente. Estão aí. Podemos e devemos incluir perspectivas outras.
Ler é sempre reler mesmo sem sabermos ao certo que influências construíram aquele texto. Reler é sempre uma redescoberta porque nós mesmas continuamos mudando. Se a leitora/espectadora não é a mesma, o livro/filme tampouco será.
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